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A contabilidade da Felicidade: bem-estar, satisfação no trabalho, desenvolvimento sustentável

Felicidade - Sandra Almeida Silva - 13 de abril de 2016

Recentemente fui presenteada por uma amiga com uma preciosidade. Um relatório sobre a Felicidade Mundial, edição de 2016. Não estava em uma boa semana de trabalho, aturdida com a quantidade de trabalho que tinha e aí este “presente caiu em boa hora em minhas mãos”! Um Relatório Analítico e Quantitativo sobre os indicadores de Felicidade, no mínimo curioso, pensei na hora. Esse é um tipo de presente que a gente compartilha sem mesmo nem saber o porquê, apenas diz: “Amiga esse relatório tem a sua cara”.

E só tenho a agradecer o “compartilhamento de conhecimento, disponibilidade, carinho e muito mais”, pois essa leitura me encheu de felicidade por saber que há gente no mundo pesquisando sobre a felicidade, em tempos tão carrancudos.

Este relatório é uma raridade, pura belezura.  Após lê-lo, vou tentar resumir alguns dos muitos pontos importantes. O primeiro relatório sobre a Felicidade foi publicado em Abril de 2012, em apoio à reunião do conselho da ONU sobre a felicidade e bem-estar, presidido pelo primeiro-ministro do Butão.  E a partir deste momento a felicidade tem sido considerada como uma variável, ou seja uma medida adequada para representar o progresso social e o objetivo da política pública.

O relatório nos fornece uma contabilidade completa da distribuição de felicidade da população separados por região e país. E a felicidade é tida como uma medida melhor, mais adequada para indicar bem- estar do que os conceitos contábeis de praxe, como por exemplo: renda, classe social, qualidade de vida entre outros em relação ao contexto social.

Os estudiosos ainda descobriram que a desigualdade no quesito “bem estar” oferece uma medida adequada em à relação à desigualdade do que as medidas geralmente aceitas e utilizadas que são a distribuição de renda e a riqueza do indivíduo.

O relatório vai longe e relata que há algumas evidências preliminares de que o desenvolvimento sustentável é uma variável propícia para indicar felicidade e ainda que a felicidade é maior nos países em que estão mais preparados e desenvolvidos em relação ao Desenvolvimento Sustentável, conforme os objetivos aprovados pelas Nações Unidas em setembro de 2015.

E por último os pesquisadores concluem: O argumento tradicional de que a liberdade econômica deve ser defendida acima de todos os outros valores, parece falhar no teste da felicidade: não há evidências de que a liberdade econômica por si só seja uma das principais variáveis que contribuem diretamente no bem-estar humano, obviamente em relação a sua contribuição para a renda per capita e o emprego.

E por fim os pesquisadores afirmam que há um vasto caminho a aprender sobre as fontes profundas do bem-estar humano, principalmente no que se refere às características específicas do trabalho e sua relação favorável ou desfavorável para a felicidade. O relatório termina mencionando o Papa Francisco que compartilha e enfatiza que a satisfação com o trabalho é uma fonte fundamental do bem-estar humano.

Para ler na íntegra o RELATÓRIO DA FELICIDADE MUNDIAL DE 2016:  http://worldhappiness.report/

Fonte: Helliwell, J., Layard, R., & Sachs, J. (2016). World Happiness Report 2016, Update (Vol. I). New York: Sustainable Development Solutions Network.

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Não tem graça rir sozinho: Capitalismo e novas formas de consumo.

Sustentabilidade - Sandra Almeida Silva - 11 de março de 2016

Assim começou o meu dia:

– Mãe, quanto você acha que valem esses sapatos? Só usei  4 vezes, disse minha filha.

– Eu indaguei – Por quê?

– Ela respondeu: Porque eu vou vender no brechó da faculdade via Facebook.

Três dias depois. –  Mãe:  já vendi os sapatos, obrigada, o preço estava bom, vendi rapidinho, vou entregá-los amanhã.

Esta cena tem sido recorrente em casa e no mundo hoje em dia. Preste atenção, não é modinha do momento e um padrão de consumo que está mudando o comportamento dos jovens e da sociedade.  Ainda é um movimento tímido, mas presente e tem tudo para ser a nova cara do consumo, divertido, descolado e fácil.

México, Chile e outros emergentes, (incluso Brasil) bem como os países da OCDE, organização que reúne as nações mais industrializadas do mundo estão noticiando uma desaceleração no crescimento desde o ano passado. Entretanto, países, digamos que seguem outro padrão de organização econômica, tem registrado resultados bem diferentes, por exemplo, o PIB do Vietnã cresceu 5,98% em 2014, depois do crescimento de 5,42% no ano anterior. Pesquisadores dizem que o Vietnã é um exemplo de crescimento com sucesso e igualdade, ao contrário da China que cresce com desigualdades intensas.

Nesse momento de crise é onde existem todas as possibilidades do “novo” surgir, é no caos que o novo prospera.

Você já ouviu falar de Economia Compartilhada?

Vamos imaginar a seguinte situação. Você precisa ir a São Paulo. Em vez de ficar num hotel, você decide alugar um quarto no apartamento da Cintia. Para se deslocar, você pega a bicicleta próxima ao metrô ou o carro da Adriana. Detalhe: você nunca os viu antes. Você vai num café com o Wifi livre e paga quanto quiser, o quanto acha justo pela refeição, serviço, ambientação. Sim, isso já acontece. Tudo se baseia na reputação e na rede de recomendações que surge na internet e se fortalece fora dela. E essa relação entre desconhecidos, comercial e ao mesmo tempo pessoal, em que consumidor e fornecedor se confundem, é a base da chamada economia compartilhada.

Acredita-se que o capitalismo tenha chegado ao seu fim, esgotado esse modelo de economia, em que se produz socialmente e se ganha individualmente e o resultado é apenas de alguns.  Modelo que já dá as caras de que não se sustenta, basta de tantas crises.

Então, que venha o novo, as novas economias, as trocas solidárias, comunitárias, as cooperativas, as startups, as empresas de compartilhamento como Airbnb, RelayRides, Uber, Netflix e as redes sociais Whatsapp, Facebook, Instagram, Twitter que possibilitam a informação, a recomendação, o endosso e a avaliação dos usuários e,  muitas outras realidades que ainda estão encubadas nessa geração que diz que não vale a pena dar risada sozinho.

A natureza do ser humano é viver em comunidade […]. Quem tem prazer ao compartilhar vive melhor. Leila Salomão Tardivo, professora doutora do departamento de psicologia da USP

Mas, não seria justo cuspir no prato que come? Vivemos sob esse regime do Capital por anos, gerações e nos fartamos dele até o pescoço.  Agora sejamos sinceros, dá uma olhada ao seu redor, observe-se do lado de  “fora do shopping” o mundo que vive, e por um minuto apenas, me diga:  Dá para falar mal do Capitalismo?

O consumo […] vai valorizar cada vez mais a sensação, a experiência, a socialização, a relação humana. Ricardo Abramovay, professor titular do departamento de economia da FEA-USP

Leia mais sobre esse assunto:

Revista Galileu

Projeto TAB – UOL

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Economia solidária: um jeito diferente de fazer negócio

Sustentabilidade - Sandra Almeida Silva - 11 de fevereiro de 2016

Hoje em dia fala-se muito sobre Economia solidária: um jeito diferente de fazer negócio e espero ser eu, a única solitária sobre o assunto. Confesso que não foi difícil encontrar boas pesquisas sobre o assunto, mas foi um pouco complicado pensar sobre um conceito tão simples e tão bonito.
Estamos acostumados com as complicadas coisas sobre economia tradicional e compreender esse conceito nos deixa confuso, foi assim que fiquei. Solidária ou Solitária? Mas vamos pelas beiradas já que na economia solidária a principal ideia é não complicar e sim democratizar.

Em princípio, a Economia Solidária é explicada como um modo de produção em que não há a clássica divisão da sociedade em duas partes: proprietária dominante e propriedade subalterna.   Como assim? Isso mesmo, as empresas solidárias estabelecem que todos os que detêm a propriedade necessariamente trabalham nela e, portanto, impossibilita ter uma classe que viva apenas dos rendimentos do capital sem ter trabalhado por ele.

Uau! Isso mesmo, na organização solidária, as pessoas com uma mesma produção (ex.: as rendeiras de Fortaleza) se organizam para viabilizar a melhor distribuição e divulgação dos produtos e depois de pagar as contas, o lucro é repartido igualmente para todos os integrantes da organização, são as conhecidas cooperativas.

Há outros exemplos dessas iniciativas: projetos produtivos coletivos, cooperativas populares, cooperativas de coleta e reciclagem de materiais recicláveis, redes de produção, comercialização e consumo, instituições financeiras voltadas para empreendimentos populares solidários, empresas autogestionárias, cooperativas de agricultura familiar e agroecologia, cooperativas de prestação de serviços, entre outras, que dinamizam as economias locais, garantem trabalho digno e renda às famílias envolvidas, além de promover a preservação ambiental.


 É muito interessante pensar que a prática democrática na tomada de decisões é de todos.  E o direito a voto é um fato na economia solidária, assim todos sabem o que acontece na empresa. Nesse modelo, cada trabalhador é responsável pelo que ocorre na empresa, nos prós e contras, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza e nos lucros e nos prejuízos. O objetivo é eliminar a solidão “das partes”, o individualismo “das classes” em busca de um crescimento solidário e sustentável “de todos”.


 A expressão economia solidária  refere-se a um movimento que ocorre no mundo todo e diz respeito a produção, consumo e distribuição de riqueza, com foco na valorização do ser humano. Além da visão econômica de geração de trabalho e renda as experiências de economia solidária se projetam no espaço público, tendo como perspectiva a construção de um ambiente socialmente justo e sustentável.


Fontes: Economia solidária e educação de jovens e adultos / Sonia M. Portella Kruppa, organização. – Brasília: Inep, 2005. 104p.

Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES) –Acesso em 06.fev.20116 <http://www.fbes.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=61&Itemid=57


 

Quer saber mais?
Vídeos

*Banco de imagem by Pixabay

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Ano Novo, hábitos velhos ou novos?!

Colunistas - Sandra Almeida Silva - 1 de janeiro de 2016

DESEJO que em 2016 todos tenham muitas tardes ensolaradas e não precisem olhar o relógio. Nesse Ano Novo, hábitos velhos ou novos?! estarão em suas vidas?

Desejo, que as noites quentes sejam regadas a sorvetes de pistache, morango e chocolate. Que perambulem pelo quarteirão da sua casa e tenham dezenas de noites de amor e que sua imaginação não se intimide ou limite seu prazer.

DESEJO que aprendam a andar de metrô, trem, bike, skate para ir trabalhar e que tenham sempre à mão, os santos fones de ouvido e seu ipod para não se irritar…mas é preciso cuidado na hora de atravessar.
DESEJO muitas idas ao cabeleireiro e barbeiro do seu bairro para ficarem ainda mais lindos e lindas, ou quem sabe aprendam a cuidar dos seus cachos, porque não? Que saibam aproveitar aquela conversinha fiada do padeiro, da D. Maria da banca do jornal, do seu José porteiro do prédio, da Zuleica manicure, do Zé do Posto e daquele insano desconhecido do metrô.
DESEJO muitos almoços ruidosos em família que seja a trapo, do barulho, sem noção, esquisitona, buscapé, mas que você a ama de verdade e com vontade;
DESEJO que você possua muitas memórias e poucos armários.
E nas noites frias de 2016 que tenham meias com tantos furos quanto a sua idade, mas que aqueçam os seus pés como a sua mãe faria; e que tenham muitas dores de barriga de tanto comer brigadeiro de panela e dar risadas; e que te façam um chá de camomila quando as coisas ficarem feias;
Que em 2016 ressuscitem o John Snow em Games of Thrones e que a sua série americana favorita tenha muitos episódios, e que nunca vire um filme! Por favor!
Que lhe façam um bom pão com manteiga torrado e uma boa xícara de café na sua padoca favorita sem que você tenha que pedir; que recebam flores e não coisas na portaria ou portão da sua casa e que o Wifi seja livre no mundo todo e as dietas proibidas;
Que aprendam logo de uma vez que para emagrecer tem que parar de comer feito uma louca; e há vida sim, sem o Whatsapp, Facebook, Google e Youtube; e que sejam amados quando estiverem totalmente errados, sem noção, bêbados, irritados e desempregados.
Que não recusem um convite para o chá de panela, bebê, lingerie, open house, saraus, despedidas de solteiro, luaus, ciladas, cafés, noitadas, festas do cabide, do pijama, festinhas, acantonamentos ou até funerais em 2016;
Perder faz parte;
DESEJO muitas viagens pelo mundo ou nas ideias e que a sua mala fique sempre pronta na porta ou janela; que saibam dividir: o táxi, a carona, a cerveja, o churras, o sapato, as dicas, a bolsinha de festa, o livro, o carro, mas nunca a escova de dentes.
Mas se a sua conta corrente avermelhar, o papel higiênico acabar, as contas não pararem de chegar, seu chefe chamar para almoçar, seu gerente do banco ligar, seu parceiro não sair do celular, seu cabelo encrespar, respire e tire o dia para descansar;
Há dias de bater e outros de apanhar;
Que parem de reclamar e aprendam sem mimimi cuidar e planejar o seu din din, há coisas piores do que isso!  Porque  não há dinheiro no mundo que compre a simplicidade das coisas.  Tenham um maravilhoso 2016.

* imagem principal  do banco de imagem Pixabay

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A Espera do Natal

Sustentabilidade - Sandra Almeida Silva - 12 de dezembro de 2015

 

Esperar o Natal nem sempre é muito fácil, pois ficamos cheios de expectativas, ansiosos e com aquela sensação de que novembro vai durar 60 dias.  Essa expectativa de felicidade futura, não é ruim, pode ser legal, mas se administrada corretamente. E pensando sobre isso, lembrei-me de uma ocasião.
Era novembro e como as mães de primeira viagem, estava cheia de ideias e energia com os filhotes.  E algo me incomodava muito no Natal, a impaciência dos meus pequenos na hora de ganhar os presentes. Eles mal cumprimentavam os parentes porque estavam compenetrados nos embrulhos em suas mãos, e no fundo eu senti um pouco de vergonha.
 Então, decidi fazer uma experiência com meus filhos. Eles tinham 4 e 7 anos na época. A ideia era fazê-los aprender a lidarem com a expectativa, ansiedade e frustação. Como será que se ensina a lidar com a ansiedade? E como se aprende? Como criar habilidades para superar frustrações?
Minha constatação empírica era de que nem tudo na vida nos será dado na hora, do jeito e como a gente deseja, portanto, aprender e ensinar a lidar com tais sensações sem parecer castigo, punição e sofrimento, é essencial.
Não queria que meus filhos associassem pessoas a coisas e coisas a afeto. Intuía que aquilo não os ajudaria na vida adulta.  Era preciso fazê-los criar musculatura emocional para aprender a lidar com a frustração. É como aprender a andar de bicicleta, no começo a gente cai, chora um pouco e depois vai ficando bom.
Como viver nos dias de hoje sem se frustrar? Como desvincular coisas materiais de afeto? Como saber esperar?  A ideia de ter filhos que não tivessem essas habilidades me afligia, pressentia que na vida adulta, a habilidade de lidar com frustrações e a espera seria um diferencial cognitivo em suas vidas.  (Ah! Mães!!!).
Então decidi que naquele Natal faríamos diferente.   Comprei os presentes das crianças em novembro, pedi que embrulhassem com caixas enormes, com bonitos papéis de embrulhos, cheios de fitas e laçarotes, e os coloquei na estante da sala em Novembro e anunciei: – Filhos estes são os seus presentes de Natal e nós vamos guardá-los até o dia 25 de dezembro. Por enquanto, eles ficarão aqui, na estante, esperando o dia certo chegar. (Era importante, não escondê-los), assim a imagem acentuaria a sensação.
 A cara que os quatro olhinhos amendoados fizeram quando eu disse, “vamos esperar até o Natal” fizeram me sentir a mais perversa e desumana bruxa sanguinolenta de Tim Burton.
Na primeira semana, os dois passavam horas apertando os pacotes, balançando-os, imaginando o que teria ali dentro. Faziam dúzias de perguntas, pediam dicas, charadas, games de adivinhações, tentavam me seduzir a todo custo. Eu resistia, intuía que aquilo era normal e não o contrário.  Até que chegou o dia, era Natal e então abriram as caixas e fizeram uma festa, gritinhos e suspiros. Felizes contavam para as tias, com os olhos brilhantes de orgulho que tiveram que esperar mais de 30 dias para abrirem os pacotes. E disseram logo em seguida: – O mais legal também foi ter aguentado, achávamos que não íamos conseguir esperar, mas aguentamos né, mamãe? Somos fortes!
Natal, a espera

Arquivo pessoal da Sandra

Yes!  Era a minha vez de gritar! Eles se sentiam fortes por ter conseguido administrar a frustação de não ter o que desejavam na hora e, portanto, perceberam que a espera nem sempre é ruim.  Essa é uma importante habilidade para lidar com dinheiro na vida adulta, “Tempo” é tudo em relação a dinheiro.  Feliz Natal e muita boa “espera” para vocês.
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Mulher maravilha volta ao lar

Sustentabilidade - Sandra Almeida Silva - 11 de novembro de 2015

Todos os dias às 5 horas da manhã já acordava me sentindo cobrada e atrasada – e era apenas um dia comum de trabalho. Como sou divorciada e moro com meus dois filhos não tem divisão: todas as tarefas de casa passam por mim. Convencer os filhos a irem para escola, uniformes, lancheiras, escovar os dentes, reclamações, promessas e beijinhos apressados.
Cardápio do jantar e do almoço na cabeça memorizando para ganhar tempo, lista do supermercado na bolsa, marcar dentista, ortopedista e oftalmologista para os filhos, abastecer o carro, pagar contas, ligar para o pai que andava doente, verificar as agendas escolares, pegar o livro do mestrado para ler no almoço, rascunhar o relatório sobre a reunião de ontem para o chefe, enviar uma dúzia de emails e ler outro tanto durante o café e, então, ir para a rotina diária de 13 h de trabalho.
Ufaaaa…tarefas de uma mulher maravilha moderna, sem superpoderes como nas HQs e desenhos animados!
Essa é uma história de verdade, igual a de milhares de mulheres que, como eu, estão no mercado de trabalho e ao mesmo tempo são esposas, donas de casa, mães, amantes, estudantes, conselheiras, amigas, filhas e o que a sociedade moderna exigir. Tudo isso sem deixar de ter bom humor, obviamente ser magra, cabelo escovado, ser ética e amorosa…
Um dia, ao sair para o trabalho, vi de relance a foto do caçula na parede da sala. Ele sorria um sorriso banguela de bebê. Senti saudades. Ele cresceu. Onde estava que não vi o tempo passar? Tive medo da resposta. Fechei a porta com a famosa culpa materna pesando nas costas e com a desculpa “é para o bem deles”, aí parei.
Mas o bem deles não poderia ser à custa da minha infelicidade, pensei. Fiz uma análise fundamentalista da situação, desenhei o pior cenário, classifiquei os riscos e chamei a família para conversar. Deixei casa, família, mercado financeiro, Bolsa de Valores, taxa do dólar, crise financeira de lado. E desenhei o projeto “Volta ao Lar”.
foto de arquivo pessoal
Como voltar ao lar depois da luta das mulheres pelo espaço no mercado de trabalho? E a Simone de Beauvoir, a igualdade de direitos, a queima de sutiã em praça pública, a música da Amélia mulher de verdade? Virar dona de casa depois dos conference calls negociando contratos milionários? Foram 10 dias de insônia e uma certeza, volto para casa com todas essas guerras ganhas! Ficar em casa agora é opção e não obrigação. Mãos à obra.
Após a negociação da minha saída e a certeza de que tinha apenas uma pequena reserva financeira para os próximos passos, defini um plano de ação. A estratégia era administrar o lar, trabalhar em períodos alternativos para diminuir o custo de empregadas, babás e motoristas, que consumiam 30% do salário, combinar colégio das crianças, atividades físicas, trabalho fora e dentro de casa. Resumindo, o plano ficou assim:
ü  Reduzir em 45% as despesas domésticas, caso contrário, as reservas não durariam nem 18 meses.
ü  Troquei empregada mensal por semanal: redução de 15%,
ü  Dispensei transporte para os filhos: economia de 7%.
ü  Cancelei academia e atividades extracurriculares das crianças e nos matriculamos em cursos gratuitos. Redução de 7%.
ü  Supermercado de mensal para semanal, e lista na mão, frutas e legumes compraria em sacolões e feiras livres: economia de 10%.
ü  Revi algumas contas de consumo (internet, telefone, celular, gás, luz, água): redução de 15%.
ü  Aprendi manicure e a cuidar dos cabelos: redução de 7%.
ü  Roupas, só uma vez ao ano, compradas em liquidações: economia de até 25%.
ü  Viagem de férias com poupança mensal, passagens aéreas antecipadas e noturnas, destinos menos badalados e surpreendentemente mais exóticos.
ü  Aprendi a cozinhar. Comida “chique” só final de semana.
ü  Investimentos são mínimos, por enquanto: poupança mensal de 10% das receitas, que agora são variáveis.
 

Esses 15 meses de volta ao lar foram dignos de um gladiador. Conscientizar-se de todas as formas de desperdício, não só financeiro, mas afetivo, moral, intelectual e emocional é um processo para a vida toda. Sabemos que estamos no início, mas os resultados são imediatos.

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Consumo & Experiências

Sustentabilidade - Sandra Almeida Silva - 14 de outubro de 2015

Após um mês mochilando pelos EUA voltamos para nossa vidinha diária e só posso dizer que aprendi o valor do custo agregado do Whatsapp. Fantástico. Economizamos muito com telefones.  Saí do Brasil com medo do cartão de crédito e firme no propósito de não sucumbir às delícias do consumo, já que estaria com uma adolescente de 16 anos a tiracolo.

Após mais um dia de Arte & Galerias em WDC, ao voltarmos para o hosteldeparamos-nos com uma “mega super blaster” loja de departamentos. Os olhos atentos da garota ao meu lado brilharam e ela gritou: “mãe é a Forever 21, vamos entrar!”.  Fui literalmente arrastada para aquela loja colossal. Senti um cansaço só de olhar as escadas rolantes, como uma montanha russa indo e subindo com dúzias e até centenas de mulheres, homens, crianças carregando roupas, sapatos, bolsas e etc… nos braços, ombros, ( para quem é de São Paulo, parecia a Rua  25 de março, só que VIP)  – “Mãe, olha só isso, que maravilha”, quase chorando ela disse: “ vem comigo pois você precisa participar desse grande momento da minha vida!”
Ops!  Eu tinha ouvido isso? Como assim! Grande momento da vida?! Não me ouviu, e já foi sumindo entre as araras cheias de roupas.
Depois de 2 horas fui à captura da mocinha e passeando entre as imensas fileiras de roupas, observei a loja, o entorno, as mulheres de todas as idades, culturas, raças, alguns homens também.  É bem engraçado observar as pessoas provando roupas. Parecem um bando de “passarinhos cantando”. No provador, cada vez que uma entrava, as outras se entreolhavam e davam suspiros e quando as portas se abriam era como se estivesse ali uma celebridade, que podia ser de Sophia Loren a Scarlet Johansson…
“Mãe olha só o preço disso!”  – Ufa,  te achei!  Vamos embora… Ia dizendo, mas ela não escutava mais.  – “Olha a qualidade, maaeeee, nunquinha na vida íamos comprar uma roupa destas por este preço. Isso sim é Finanças, mãe”.
E foi nesse momento que percebi que aquelas roupas eram muito mais do que roupas, eram experiências. Cada peça de roupa trazia em seu conceito uma experiência para quem a comprava. Era como se viesse junto com a etiqueta um “mundo secreto que só a dona da coisa comprada sabia”. A roupa era a porta para aquele mundo de faz de conta.  Aliás, conta, cartão de crédito, ops acordei do devaneio!
Bom, querida, adorei participar do “melhor momento da sua vida”, mas o que temos para hoje é: estamos no início da viagem, 22 dias de alimentação, hospedagem, transporte, uma mala que suporta apenas 30 quilos e lembre-se que somos “noiszinhas” que a carregamos.  Além disso, só para constar, nosso gasto diário deverá ser R$ 70,00 dólares (all in) e, portanto terá que escolher apenas uma peça de roupa por até U$ 20 dólares, se quiser almoçar hoje.  E por favor, decida nos próximos 15 minutos se não eu vou surtar, e você terá que me internar,  e com certeza o nosso seguro viagem não cobre surtos psicológicos. – Pronto falei e fui para o caixa.
A reação dela foi a mesma coisa que terapia de casal. Acusações, chantagens, queda de pressão, ameaças, auto piedade, foi dos 16 aos 5 anos de idades em 3 segundos. Fui chamada de nazista, preconceituosa, desinformada e que era uma velhinha amarga por não ter tido uma forever 21 na minha época etc. etc.
E eu nada disse, fiquei na fila do caixa, com cara de HP 12 c. Sabia que não podia ceder. Ela veio para o caixa com ares de sofrimento terminal, cada peça que ia deixando no balcão era uma parte do seu corpo que ficava. E entre soluções e palavrões, escolheu uma peça pela qual pagamos 18 dólares e saímos correndo da loja.
Lá fora, respirei aliviada e percebi que a gente procura no consumo algo que nos dê experiência de qualquer tipo: emocional, sensorial, física, comportamental e que tais experiências podem vir embrulhadas em um lindo vestidinho ou em uma dúzia deles, é a gente que decide.
Fanpage: Finanças&Família&Afins
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A Utilidade das coisas…

Sustentabilidade - Sandra Almeida Silva - 9 de setembro de 2015

Viajar com uma adolescente de 16 anos para os EUA é uma lição de economia, geografia e resistência, nada suave…

 
Esta viagem é o resultado de um teste empírico em que a mãe, esta que vos escreve, fez com seus pimpolhos quando estes estavam com 12 e 9 anos.
 
Na ocasião pedi aos meus filhos que olhassem para o globo terrestre e escolhessem um país para a viagem dos seus sonhos, e valia qualquer lugar.  A ideia surgiu a princípio para dar-lhes a visão objetiva de que nada é muito longe ou muito perto, nada é impossível, e tudo pode ser impossível. Tudo ou nada depende de nós mesmos e pode acontecer se assim desejarmos e planejarmos. Sem direitos a mimimi!!!
 
Queria tirar-lhes a ideia material do consumo e incluir o valor do dinheiro para as coisas que não possuem preço. Podemos consumir sonhos? Qual é o preço de um sonho? Seria apenas  um detalhe a aprender sobre a “utilidade das coisas”? Qual é a função de um SONHO na vida da gente?
 
Essa experiência da viagem dos sonhos foi o resultado esperado de 4 anos de poupança, que ela mesma fez. Mensalmente ela retirava uma pequena parte de suas economias para a viagem. A espera foi por vezes um sucesso e em muitas, tortura. Passamos por todos os sentimentos, da completa desconfiança de que esse dia chegaria, a vontade de saquear o cofrinho para comprar “algo de extrema” urgência.
 
Passamos pelo ódio mortal da minha filha em não poder “usar seu” dinheiro guardado para comprar o imprescindível modelo de celular que “todo mundo tem” e eu como mãe, sofri diversos tipos de Bullying (da família, dos amigos, etc.).  Eu queria saber se minha adolescente ainda possuía sonhos, conseguem esperar, podem planejar e se ainda são um pouco parecido com que eu fui há alguns anos …
 
Ufa! Acho que sim, mas updated!  Igual mais diferente! É preciso argumentação… das fortes, mas está tudo lá, guardado, só mudaram as embalagens. O santo Google é bom, nós como pais é que devemos mostrar “a utilidade das coisas”.
 
Bem chegou o grande dia, vou tentar mostrar a “utilidade” das coisas na Meca do consumo, NY City! E aprender com esta adolescente o que é que atrai tanto no consumo de qualquer coisa que seja importada.
 
 Pela lista da Bia das “coisas básicas, úteis e imprescindíveis para a sobrevivência decente de qualquer menina de 16 anos” acho que terei mais uma longa aula sobre a “VPL” (valor presente líquido), afinal entender a efemeridade do consumo é preciso mais do que o Google ou de poupança, é preciso viver e como sempre digo a Liberdade Financeira é uma das principais liberdades do ser humano, e para atingi-la é necessário que suas finanças sejam sustentáveis!
 
 Escrevo sobre o resultado quando voltarmos Deseje-me boa sorte! 


Serviço: Poupança de quatro anos, de $ 50 a $70 por mês. Serão 28 dias de mochilão nos EUA, 6 hostels, 2 hotéis, divididos em 5 estados. Hostels e hotéis na faixa de $50 a 65 dólares por pessoa, Alimentação $ 30 dólares por dia por pessoa, transportes internos (trem e ônibus) média por trecho, $65 dólares, o resto é diversão. Passagens áreas, $ 2.800 compradas com 7 meses de antecedência. 
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Cartão do Banco & Game Over!

Sustentabilidade - Sandra Almeida Silva - 13 de agosto de 2015

Depois de uma hora na fila do Banco, pensei: começamos bem! Percebi que ele estava um pouco tenso, afinal era a sua primeira visita ao banco como cliente, e eu fiz questão de acompanhá-lo.  Aos 14 anos já é um rapaz e finalmente chegara a hora de começar a pensar em dinheiro.

 
No caminho até ao banco, ele estava feliz e então aproveitei para dizer-lhe algo que eu queria ter ouvido aos 13 anos… que a independência financeira é umas das mais importantes liberdades que uma pessoa pode conquistar na vida, e que quanto mais cedo entendermos isso, menos dependência do dinheiro teremos, e mais livres seremos. Não é apologia ao dinheiro, é dar a “ele” a devida importância e respeito, conforme o ditado: “não existe almoço grátis!”

Ninguém consegue ser totalmente livre se não conquistar a liberdade financeira. Continuei explicando, mesmo ele revirando os olhos de tédio ao me ouvir falar. Filhos reviram os olhos ao falar de assuntos “chatos” com os pais, mas eu não me intimidei e afirmei:   hoje é o seu primeiro passo, administrar sua mesada, transporte, conta do celular e lanches no colégio e para isso terá seu primeiro cartão bancário e terá de aprender toda essa parafernália de conta corrente, cartões bancários, senhas, taxas, segurança, planejamento, o custo de cada coisa e etc. Você vai gostar pois terá uma porção de senhas para decorar, (dessa vez, fui eu que revirei os olhos). 

Arquivo pessoal Sandra Almeida

Ele me encarou e disse:  “eu jogo games muito mais complicados, mãe! Será moleza”, disse rindo.   Percebi que ele ficava tenso a medida que o atendente ia falando, apreensivo ao ler todas as regras e normas bancárias, senhas, cuidados e as devidas penalidades. Teve que deletar alguns aplicativos do celular e colocar o do banco, o totten de senhas, (sim, agora a senha é gerada no próprio celular, adeus chave de segurança) e viva a tecnologia.  Se perder o celular, nem acessar a sua conta no banco conseguirá, Jesus!  Após três horas, voltamos para casa em silêncio.

 
Nos primeiros dias, a cada ida à padaria era uma sensação, balas compradas com cartão, crédito no celular. Na escola achava o máximo pagar sua refeição com cartão e orgulhoso apresentava seu nome estampado naquele dinheiro de plástico. Mas lhe bastou um mês de liberdades, e os problemas chegaram. “Mãe: acabou o dinheiro e hoje não tenho como almoçar. Não sei onde gastei!  O crédito no celular também! E o pior esqueci o cartão na cantina, depois caiu do bolso e o mais grave: perdi o cartão”. E agora?!  A cara dele dava medo, mas respondi:  – pegue os formulários e leia sobre as regras de perder cartão, senha e etc. e boa sorte.  Na vida real as coisas são diferentes, não existem vidas extras, querido.
 
Não foi fácil para um garoto de 14 anos administrar sua conta, créditos no celular, almoço, transporte e a mesada (essa ele poderia gastar com o que quisesse).  Esquecia o cartão e quando não, a senha, e quando estava com o cartão, esquecia o celular, e sem o celular, não tinha a senha, foi uma roda gigante esses dois meses, uma tortura. Sem falar nas duas horas no banco cancelando cartão, senhas, por duas vezes e etc. Ele misturou tudo e acabou voltando a ter que levar lanches de casa para não ficar com fome.
 
Mas no fim o saldo foi positivo: Ele aprendeu como é que o dinheiro sai da conta e em pouco tempo terá que aprender como é que o dinheiro “entra” na conta corrente. Aprender a construir a liberdade financeira, é uma questão de treino, e quanto mais cedo, melhor!
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