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Hoje eu só quero que o dia termine em Carpe Diem

Colunistas - Rodrigo Vieira - 23 de maio de 2015

           

 

Hoje eu quis uma nova vida. Hoje eu abri a janela, o céu estava azul (de novo, e não à toa), a cortina dançou na manhã. Hoje eu quis mudar, deixar para trás o que não serviu, rasgar o casulo. Hoje eu quis Carpe Diem, ao menos só hoje.

E o que de mim fica é o que impede, é o que retorce, de que nada adianta permanecer assim. São minhas perdas, fracassos, a desistência de um amor não recíproco, um bilhete amassado de mentiras. Outros gestos, o que não fui, o que não deveria, o que amordaçou, calou, doeu. Todavia, hoje não poderia ser assim.

Acho que o agora é pra brinde. Um brinde solitário, solidário comigo, talvez por piegas, ou acreditar que ainda estou vivo. Que seja. Quero música, um ritmo cadenciado, embevecido, com êxtase nos passos da sala, onde eu posso ser louco sem par. Mas, de igual, quero silêncio. Silêncio para uma prece, uma prece de recomeço, mesmo acreditando que não estou preparado. Isto é fé, que eu tenha fé.

Fé em minha vontade, no que há de bom, no que tenho de bom. Fé em Deus, fé na vida, nas pessoas certas. E se muito me falta, pouco tenho; se pouco tenho, devo multiplicar num milagre. Afinal, vida sem milagre é um conto tão vazio. Das tantas histórias do que quero, quero um fim de dia diferente, quase pueril, quase novidade, quase como último, quase como o adeus. Encanta-me um plano sobre ele, transcende-me o não esperado, o que para alguns é acidente, para venturosos é sorte.

Será que meu dia vai acabar em “Eu te amo”? Será que vai findar no atraso do poente? Será com uma ligação de saudades? Não reclamaria se viesse com uma notícia boa, quão menos se vier num suspiro contento que lhe faz sonhar como na noite passada. Poderia ser com um grito, um beijo na boca, na bochecha, na testa. Poderia ser na bagunça de uma criança, entreolhares, um esbarrão, uma velha piada, uma remota lembrança. Poderia ser no quarto, na rua, na estação. Poderia, e eu nem imaginaria outras coisas.

Contudo, tem que ser pra hoje. Clamo para que o hoje me salve, puxe-me pelas mãos, onde não sei mais andar. Não, não quero mais esperar, não quero resignar, ou aguardar na fila de espera. O agora é meu eleito, minha sorte preferida, sem borracha em seus traços, em sua grafia dadivosa. Eu quero para hoje, eu quero para já, eu quero sorrir sem mentir, eu quero dizer do que se foi com uma simplicidade que liberta.

De tudo, não preciso de motivos. Quero dos acontecimentos inesperados, de desencontros felizes, quero estar com o rabo virado pra lua. Se virá da esquerda ou direita, não me importo, que caia do céu e me derrube. Hoje eu quis que o dia terminasse assim, só espero o amém. Espero que valha, de graça, sem papel.
  
Quanto ao que ficou, que fique.
Hoje o dia é meu, só pra mim, mais ninguém.
Que seja passado o que não me é presente…
Hoje eu só quero que o dia termine em Carpe Diem.
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Rir é o melhor remédio, então ria de mim!

Colunistas - Rodrigo Vieira - 13 de maio de 2015

 
 
Foi quando reclamar parecia mais sensato. Quando o desespero servia como possibilidade plausível. No instante em que a sorte negou suas virtudes. Pedi ao meu Eu: “Ri de mim”.
 
Verdade que dias, ou menos dias, aparecem com mais aborrecimentos que contentamento. Mais tédio que entusiasmo. Vontades de chorar que salgam o abrir largo da boca num sorrisão. É a grana curta, o problema familiar que dói mais em nós. O amor mal resolvido, o amanhã que vem indeciso. Tantos são os motivos que abalam, a trazer preocupação quanto aos seus desfechos. Ri.
 
Ri, sim. Falseei as intenções, não havia alternativas. Estava mais para suicídio de expectativas que propriamente redenção de felicidade. O início era desvairado, mas a única alternativa restante. Rir. Já havia ouvido que rir de tudo é desespero. Então vamos lá, quem sabe uma deprê com mais cores transforma a solidão em carnaval.
 
Ria dos meus risos, mal sabendo que a cura da secura espiritual está na alegria. Ainda que temos de reanimá-la constantemente. Rir de tolices próprias, como algumas que nos fazem levianos (quem sabe briguinha juvenil seja exemplo). Rir das atrapalhadas que fazem corar o rosto, de tão estúpidas que revelam ser. Rir até mesmo dos fracassos, por mais que doam e ressoem na memória.
            
O mundo anda frígido, não há espaço para entusiastas. Tidos como loucos! Logo, nosso status natural é convertido a paradigmas externos, o desespero e a desistência formam o lema que empurra a falange. Imersos a problemas reduzimos nossa inteligência, porquanto negligenciar o próprio bem-estar é ato ignorante. Burro será, burro caminhará.
           
As lamúrias não apagarão nossas provas, é avaliação da vida, dignificando nossa permanência sob seus cuidados. E de que valeria a vivência sem espinhos, enquanto as flores mais nobres os têm? É tempo de deixar caprichos, sujar-se com resoluções, compreender as dores que preparam o amadurecimento da conquista. Rir faz parte.
            
Habituar-se a sorrir cego aos olhos negros que escurecem a vista. O riso contagia, envolve o universo, seduz positividade. Gargalhadas não resolvem situações desfavoráveis, porém transferem tranquilidade para saná-las. Rir não envelhece, infantiliza – beneficamente – corações à procura de satisfação. Procurei rir de mim, zombar de meus insucessos, até virarem reminiscências. Apenas isso.
            
Talvez erremos nas medidas. Nos pesos. Quem sabe damos importância maior – imerecida – a tudo isso, quando na verdade nada é tão relevante, nada é menos relevante. Só existem para serem vividas – tudo o que há na existência. Entretanto, o temor pelo ridículo ainda nos assombra, e é fruto da vaidade querer regrar os acontecimentos, para que no final não haja escárnio. Assim perdemos ótimas oportunidades de divertimento, no fundo (no fundo) a maioria dos medos, ou tristezas, não passam de choques imaturos, do qual não possuímos domínio.
           
Pedi ao meu Eu que risse de mim, e tomara que ele não pare. Em breve, aprenderei que, seriedade excessiva no tratamento estraga a continuidade de emoções. Forma murmuradores, não caçadores de experiências.
  Ria de si, no oportuno e inoportuno, para que uma queda do salto alto não atrapalhe o dia.                            
                 Que seja mais uma razão para a coleção…
                        Igual àquelas que nos relembram o quão ridículos fomos até aqui. Ria de mim
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