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Emoções sustentáveis geram sentimentos sustentáveis

Colunistas, Felicidade - Rodrigo Vieira - 12 de setembro de 2016

Na moda de um novo amor, na voga da novidade liquidez, faltou algo que ditasse o rumo. Sentia falta de algo, enquanto outro sentia acolá, igualmente. Era a falta de sustentabilidade afetiva que nos ausentava, incompletava, era adornar o que de nós dá sustento. Quando nossas emoções sustentáveis geram sentimentos sustentáveis?

Foram coisas assim que premiam, urgiam, rugiam sem saber. O nome disso, a nomenclatura daquilo. Tão esquecidos numa rotina polvorosa, de discursos decadentes, que se contradizem por novidade. Eu apenas me calava na indagação de uma novidade por novidade. Ser novidade só por ser. Isso que amanhã é descartável, como copo plástico, pessoas de plástico e afins de plástico. O que era a cultura do “novo”, agora já é tarde, como o vai e volta de nossas vidas, indo e vindo no espelho embaciado do banheiro.

Fotos trocadas, post´s veraneio de uma vida boa, caras gentis, contrastes reais. O antiquado como cortês, num eufemismo lírico do que fora velho. Um tanto do que gosto, ligar para alguém, os encartes dos cd´s, o marca página no centro da página de autoajuda, escrever no papel. Entusiasta, saudosista, um copista de meu tempo e textos. Ainda me orgulho de não dizer que amo a cada mês, hora e segundo. Entendo que tudo é tão rápido, tudo quanto raso, tudo quanto antiquário de nós mesmos.

Ainda ausenta, ainda carece, fenece. Descreio que tudo se constitui fugaz, rápido de mais, moderno de mais. Tudo é pouco a pouco, ponto por ponto, longa expiração e inspiração. Seria segredo não cuidar do que já temos, nem sempre nos falta, quando quase sempre sobeja. Mal se agradece, mal se cultiva, num clima cheio de ideias de muito “mi-mi-mi”, que fala e não vive de si. Gente de mais, fala de mais, pouco de mais.

Como vivermos na essência, diante de tanto “mi-mi-mi”?

Será a hora de repensarmos, reamarmos, redesenharmos, resermos, reescrevermos. Será a hora em que correspondo à tua mão que me procura, aos teus gestos pidões, ao teu descontente dia em súplica por dias melhores. Hora de ligar para amigos do tempo da escola, procurar quem não me procura, desligar o celular e brincar de telefone sem fio ao pé do ouvido. Seja o instante de apagar a luz, viajar, ir ao ponto mais alto da cidade, comer no melhor restaurante uma vez, pôr mais vinho no copo, dançarmos até o último convidado cansar. Será fazer tudo isso sem precisar mostrar nada a ninguém. Será fazer tudo isso só para nós, de novo: por nós, de novo.

Quem sabe e eu sei, o momento é oportuno para enxergarmos beleza no mesmo semblante, no mesmo tom dessa tez, no agrado desse pé que te coça feito meia quente. Ainda nos acharmos jovens no próximo desafio de trabalho, ou num pernoite pela cidade. E que assim, mesmo, recicle, reaja, areje esta ideia confundida, que difunda que podemos ser de novo, tão ou mais novos que a primeira vez.

Muito quero, muito que quero, de querer as mesmas pessoas que me querem até hoje. As mesmas emoções, alentadas, que não são momentosas, todavia de longas datas. Datas que me chegam, de poucos e suficientes que me abraçam e falam audivelmente “Feliz Aniversário”. Ainda me regozijo, ainda me basta, perder de vista o tempo que nos conhecemos, que nos gostamos, em amigos, em namorados, em colegas, em parceiros, em humanos. São histórias que se formam, o tempo que dá acabamento, a revalorização diária do que temos em nós. Nós.

Deixar um bilhete como a primeira vez. Ser engraçado como no início. Valer como no princípio. Corresponder como que agora. Não precisamos, impreterivelmente, de novidades, necessitamos da sofisticação de não deixarmos desbotar. E tudo é fruto, estação, cíclico. Nós para com os outros, os outros para com nós.

Já me perdi nisso.

Nisso me tenha tão incerto como a última,

Porém tão certo como a primeira vez…#Emoçõessustentáveis, #sentimentossustentáveis.

Leia também no blog outra crônica do Rodrigo Vieira

 

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De repente, saudade

Colunistas, Felicidade - Rodrigo Vieira - 31 de maio de 2016

Do alto dos meus vinte e poucos anos já lido com sentimentos constantes, como a saudade. E isso é a você, a mim, trinta, quarenta, cinquenta, mais. De repente dá nisso: saudade.

A saudade é um querer resgatar o tempo, que rasga lá trás os anos que se foram tão rápidos. Saudade também advém de uma insatisfação momentânea, não se encaixa com o tempo presente. Creio, sobretudo, que seja a força humana pela busca do que faz feliz. São as caras, os gestos, os sóis vistos a dois, o cheiro de perfumes antigos, tudo isso vem na saudade.

Vê-se que os anos acumulados geram mudanças – crescimento e retrocesso por área de atuação. Entretanto, algo se prende ao que ficou, que foi deixado não por escolha, mas por nexo da existência. Os brinquedos que corriam pela casa, a coberta rasgada predileta, o ritual do “boa noite”, ou aquele conselho chato pela manhã.

Há quem sinta saudade daquele tempo vago, ao mesmo tempo tão completo. Onde as horas eram jogadas a esmo, numa ilha de bate-papo e gesticular manso, perfeitamente cabido ao ocaso reinante. Alguns caíram no frenesi urbano, e isso se faz entediante quando o relógio controla os passos corridos. Um alento, a saudade nos sobra.

Outros de sua liberdade adolescente, onde nada havia muito compromisso quanto responder à chamada na aula. Há saudade nisso, também. Daquela época em que se ficava o dia, tarde e noite na rua, juntamente com aqueles que porventura julgamos ser eternos amigos. Saudades dos meus dramas, pieguices no espelho com a primeira espinha.

Lá na frente sentirei falta até mesmo da loucura profissional, quem diria. Diga com propriedade quem deixou de acordar às 5 da matina, tomar um café requentado enquanto ajeita as vestes do dia. Transporte congestionado, ida e volta, junto às preocupações rotineiras de um escritório quadrado. Isso também concebe saudade, por incrível que pareça.

Já sinto saudades do que ainda não senti, vi, vivi. E isso é possível quando se considera a vida em seu máximo grau. Contemplo os amigos, cada familiar, meus lances românticos, na certeza latente de que um dia nossos momentos se irão, como eu… Pela distância, circunstância ou morte. Tudo vai, a saudade fica. Bom-senso é o cuidado por construir boas realidades que ficarão na memória, nossas lembranças são relicários.

Ao término deste espetáculo seremos órfãos do tempo. Ao mesmo tempo de beleza, que por ora vira crueldade, e dita a nós o limite de sermos quem somos…

Forasteiros efêmeros, desbravadores ingênuos, andarilhos de rotas falsas. Caminhamos rapidamente, vagarosamente, e ao redor tudo passa – cama bagunçada e danças sem par – e nada fica no lugar do primeiro encontro…

É aí que de repente, saudade.

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Cafés, pelando, mais café

Colunistas, Felicidade - Rodrigo Vieira - 12 de maio de 2016

Sentamo-nos defronte, depois de um leve cumprimento inicial que precede o blá-blá-blá. Não, não havia puxado a banqueta estilosa para ela, como um bom gentleman faria. Entretanto, sorri ao perguntar:

– O que vai querer?

– Um café – respondia a mim e à mocinha que já atendia sem eu notar.

– Dois – complementava antes de a fulana virar as costas.

Volta e meia estamos nessa, encontros esporádicos de semana, no qual alguém cita “Quanto tempo!”, na tentativa de recuperar o tempo ausente, e realmente perdido. Mas isso ameniza. Nessa cara social, falamos sobre trabalho, discorremos sobre clichês, tudo o que encabeça a ambiência daquele ponto movimentado. Certo que havia outros entre nós na mesma condição.

Bom, o café chegou. Açúcar ou adoçante. Ela quis o adoçante, como a cartilha elegante de uma dama prediz, eu esvaziei um sachê de açúcar na xícara bonitinha.

– Você se lembra de quando…?

– Ah, sim… Verdade.

Eram conversas vazias, bestas mesmo. Era um protocolo de dois entes crescidos na urbe. Enquanto isso, o café fumegava lá dentro, sozinho naquele recipiente. Já ouvira sobre as combinações míticas de um bom café, rimas com amor, proseadas com poesia. Juro que acreditei, ou somente queria sair daquilo.

– Não é verdade? – ela apontava com o dedo mindinho a mim.

– É sim… – retrucava ausente, sem nem saber o que ela falou.

… Divagava com aquele café, tragado a poucos goles. De repente falava alguns absurdos a ela, como declamar uma frase manjada de algum escritor famoso. Nisso tudo ela se fazia de estranha, mas envolvida. Até que seus cabelos começavam a ter graça, seu sorriso agora era enigma e ela a esfinge que mais tarde me devoraria. Parecia alcoolizado, era só café, e tudo tinha mais graça. Melhor seria se falássemos das tais combinações: Ah! O amor.

– O amor é fogo que arde sem se ver?

Em meu solilóquio era só mais um, um a mais. Apenas alegrava-me o fato de o café ainda estar quente, e até que ele ardia sem eu ver. Depois de outro gole perguntei sobre seus amores, e ela demonstrara tormento ao reler seus fracassos. “Linda desse jeito?”, tentava recobrar a estima. Pois é, não estava tão feliz nos amores (pena que ela não jogava), sugeri que se permitisse mais, no entanto a recusa era clara em seu olhar reprobatório.

Certamente que aceitaria uma tarde de amor, um café e um livro de poesias, jogado aberto a canto qualquer. Pegaríamos um violão, arranharia dois, três acordes, cantaríamos o refrão. Logo deitaria em meu colo, nós no tapete da sala, bebericando na mesma xícara, ouvindo o som do relógio – que sempre quer assustar. Acalentaria, faria ninar com cabelos despenteados, acordaríamos com a réstia do sol tramitando entre a cortina velha. E ela gentilmente ia à cozinha fazer outro café, até por que eu não sei.

Paradoxal como é, a vida não tomou esse rumo. Se ela soubesse como é bom, me inconformava com sua cara de nada, de vento, que já arrumava a bolsa com uma nota na mão.

– Tchau. Até mais.

Não tive tempo de responder, estava embalado por aquela fumacinha, que não existia mais no café frio. Outra, pude ver a marca de batom na borda. Restou-me rir, nem todo mundo fora feito para amores, poesias, cafés, uma música. Mais café. Nem todos sabem tomar café, poucos sabiam o que nele tinha. Iria perguntar para a mocinha, que viera retirar as xícaras, se ela me compreendia, mas deixei pra lá. Rimos os dois, sem saber motivo, desconfiei que ela soubesse do que estava falando. Eu pedi:

– Cafés, pelando, mais café.

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Já me arrancaram um sorriso de lado

Colunistas, Felicidade - Rodrigo Vieira - 27 de abril de 2016

            Já me arrancaram um sorriso de lado. Meio de lado. Meio calado, alado, avexado. Sabe aquele que sai sem convite? Esse. É disso que eu tô falando.

            Um riso moleque, travesso, desmesurado. Que vem pro canto da boca, alarga os lábios, salta luzidio nos olhos. Risos que nos indagam, provocam, nos fazem loucuras de trinta segundos. Mais do que mágico pela falta de motivo; ou pra quem necessita, uma razão morna para justificação.

            Ser pego sozinho, assim, consigo, é. Um sorriso que por vezes brigamos, polimos, votamos. Que delata iminências, uma mão no celular, uma mensagem que dá pra isso. Uma delícia de quem está turrão, convertido por um ato heroico de alguém que lhe foi palhaço por um dia. Eu prefiro dos mais insanos, quando do nada algo inunda lá dentro, transborda, e você ri agradecido.

            Todavia, jamais hão de ser exclusos esses risos de paixonite. São tão divertidos. Aqueles que ficam no entrega, não entrega. Aqueles que se dão de cabeça baixa, num relapso que escorrega o quanto se quer, entre os dedos que tiram o cabelo que cai na cara. Aqueles que, até os quarenta e cinco do segundo tempo, ainda estão no 0x0.

            Sobretudo, arrancaram-me forte essas faíscas de felicidade. Foi aí que me senti dono do mundo. Acho que todo mundo, um dia, teve essa sensação. Algo grato, divino, ritmado. Algo que é só seu, quando você se convence de não precisar de mais nada – ao passo que essa alegria discreta já foi bem instalada. Seja por um elogio, um gesto, uma carta, uma música dedicada, o que cala a boca para sorrir só para você. Sem plateia.

            E o que tem nisso? Não sei, mas é bom. Prefiro ter a não explicá-lo. É sempre contento ser feliz à toa, igual à-toa, pode ser assim também. Perder-se numa abstração, num sonho impossível, num fim de tarde clichê, esboçar graça todas as vezes que o sol abrir num final de semana.

            Aí você passa a entender, usar lógicas despropositais, contar com a sorte. Ser amigo do acaso. Aguardar o que vem, segurando um sorriso como isca, pronto para pegar lampejos que lhe roubem das desventuras do dia a dia. No instante que uma gargalhada de bebê lhe tirar do sério, quando você fechar os olhos numa brisa, bailar com a música e as lembranças prediletas, fizer etecetera e tal, aí saberá o sentido que há.

            Enquanto não há, cacemos. Cacemos o improvável, deslembremos trabalho, a atividade atrasada. Permita-me permitir. Permita-se permitir. Permita até certo ponto, depois abandone a permissão. Deixe-se levar, perca-se quando der; e se não der, tente voar em casa. E eu, que esses dias andei pensando que nada tinha, olhei da janela – em movimento – o céu, e ainda tinha estrelas que nunca contei…

 

Olhei para o chão, vi tanta gente que não vivi.

O quanto podemos fazer antes de amanhã, depois de ontem.

Foi então que assumi…

 

Já me arrancaram um sorriso de lado.

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Simples, modesto, um singelo que só

Colunistas, Felicidade - Rodrigo Vieira - 5 de março de 2016

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Andei a vagar, andei sem pressa. Andei-me a parar, sem hora, sem prazo. Avistar a vista primeira, sentir o primeiro perfume, o primeiro barulho, meu piscar moroso feito soneca. E somente vi que queria a vida assim, francamente.

Era deixar de canto os sofismas, a profissão, o título que lhe dão, ou mesmo o nó bem dado na gravata. Era deixar-me, como se os cabelos fossem alforriados para voarem com o vento que precede a noite. Como tanto faz, como tanto fez, o que seria, o que fui, todos trocados pelo conforto de pôr os pés no banco de madeira. Era tal largueza do tipo que desabotoa a camisa até o meio do peito, do tal desvario que assobia sozinho. Mais ou menos assim.

Assim, de um jeito menino, de um jeito moleca, que quebra regras. Seguir descalço a trilha das formigas, ou o alto da calçada. Queria simplificar ao ponto de bebericar três vezes mais aquele café. De voltar para cama, soltar três palavrinhas que descortinam a covinha daquela moça. Talvez me atrasar mais meia hora longa por dedilhar uma música nova no violão, ou me empolgar com dois versos pueris em um papel jogado na mesa. Literalmente sair comendo chocolate no café da manhã.

Modéstia que faltava. Que apaziguava. Que soprava a alma. Modéstia no trato, no tato, no talo. Já me parecia tão ignorante correr com o relógio, xingar aquela linda pessoa que liga todo dia para casa porque precisa daquele trabalho. Já me parecia ignorante, ignorar. Ignorar tanto, coisas, coisinhas. Do cadarço ao sonho de uma senhora-menina. Atribular-me com o que não consegui realizar, penalizar-me, culpar-me, vitimar-se, eram palavrões esculpidos na mina néscia atitude para comigo.

E o que era para ser, sempre fica por último. Eu sou assim, como quase meio mundo, nesse rito misterioso de querer sofrer primeiro. Por quê? Por que, se tens o sol e a lua por gratuidade? Amores, um amor, louco para te fazer feliz na hora em que chega cansado. Música de monte, batida de monte, pra todo corpo que sacoleja a alma desbotada. Afagos, olhos enternecidos, carência de mais, às ruas, à procura, à doçura, num simples “Muito obrigado”.

Começo a entender que o tanto que nos falta são os monstros que rabiscamos. É o que arrefece, o que fenece, envenena. Se não me tem faltado à luz do dia como a meu próximo; o dom de sonhar, doce como o sonho. Se ao acordar tenho o direito de mudar e decidir ser feliz, sem juiz. Nos dias que nos chamam da janela, céu azul, dá pra pensar na inocência dos passos calados. Se tiver sorte, muita sorte, acordará ao lado de quem ama, e saberá que a sorte mostra os dentes num sorriso breve.

Parei por acaso, no ocaso. Parei por descuido, por desatenção, menos direção. Parei por que tive medo, quem dera antes fosse assim. Foi aí que andei reparando nas trivialidades que sempre estão no mesmo lugar. Escondidas, por querer, arbitrariamente. Lindo é achar graça de novo, redescobrir a graça de que dependemos. Na cor da mesma paisagem, no ronronar do mesmo gato, no adereço da mesma pessoa, no gelo do mesmo sorvete. Vida é isso: redescobrir.

Andei cheio de coisas,

Por fazer ou ser.

Contudo, nada me valeu,

Valeu-me ser…

Simples, modesto, um singelo que só.

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Dance comigo

Colunistas, Felicidade - Rodrigo Vieira - 5 de agosto de 2015

 

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A mesa era tirada do centro, as cadeiras arrastadas provavelmente incomodaram os vizinhos de baixo. Meio de semana, anoitecer fresco, dos que fazem o vento empurrar a cortina com delicadeza. Os dois na sala supunham um passo.

 
 Era irreverência realizável, das muitas que nos fariam felizes e sãos. Um rádio velho, presente antigo de família, sintonizava alguma música que lhes parecia íntima. Alguém largara os afazeres do trabalho, alguém esquecera a janta, um prato na pia, a porta aberta. Uma mão pedida soava estranha à primeira vista. Risos jocosos, incrédulos, que se converteram em inocência com o apelo verdadeiro de quem refizera o pedido.
 
– Dance comigo.
– Mas você não sabe dançar.
– Não é preciso saber… Só é preciso encontrar o seu ritmo no meu, e o meu no seu.
Não sabia a diferença entre folk e jazz, estilos ouvidos em uma entrevista na madrugada. Nunca frequentara um salão, e ainda não entendia os alongamentos de uma dançarina de ballet. No entanto, sabia que existia um ritmo além do que se pode dominar e discorrer sobre ele. O ritmo que sentia era realmente além das coisas, aparecia a cada um do modo que bem quisesse.
– Apenas dê a sua mão, o resto já está em nós.
Seu ritmo era um sopro do entardecer, a brisa que ia da varanda à sala. Eram seus olhos cansados, que mesmo assim não perdera a chance de admirar, poder encontrar um repouso num marasmo avulso. Uma pulsão, um frêmito, um pé descalço, uma cintura na mão. Seu ritmo era o silêncio declamado, uma poesia solada, alguma sensualidade ocorrida no ombro acolhedor que lhe faz sentir o cheiro no cangote.
Dois perdidos. Sozinhos em cada passo, em cada recordação, em cada desilusão que se sente ao parar o tempo da vida. Desacelerar, jogar, subverter. Dançavam. Dançavam como se o futuro fosse um quadro quebrado, como se o passado não valesse a entrada, como ato sem cálculo, sentido com uma respiração tão pausada.
– Me leve nessa dança… Não me deixa esquecer que isso tudo é uma dança. Me leve com você, preciso ir.
A dança que pedia era metafísica, um experimento, uma magia, um efeito sobrenatural. Todavia estava mais próxima da leveza, altaneira. Leveza de vida, dançar com a vida. Ser bailarino sem ofício, desviar caminhos, trocar o disco, entrar no ritmo. Sua dança não podia acabar, era uma nesga esperançosa, uma frincha que não deixa morrer a luz, um romance perdido na areia sendo aberto e relido. Sabia que o tempo é maestro, mas quis roubar sua batuta e eternizar seus amores.
– Não desligue o som. Não abaixe o volume. Não ligue para o tempo… O tempo é o que queremos que seja a partir de agora.
O céu era maior. A vida que tinha avolumara suas histórias. Seus heroísmos apagados. Suas mãos noutro corpo conduziam o embalo, e isso era o seu auge, do tipo que diz que tudo poderia acabar ali. Desencontros, descompassos, pisões eram dedos se achando, se querendo. Ainda não sabia dançar, mas dançava como ninguém.
– Digo que você é meu melhor par… E serei muito mais feliz se dançarmos por todos os dias que pudermos ser.
A música se aninhava no desfecho, naquele último chorinho, que ia sumindo vagaroso. Alguns poucos minutos encostavam a eternidade na parede. Não soubera se bossa nova ou samba de raiz. Soubera dançar, com a vida e seu par…
                                        Que aos poucos desgrudava de seu corpo, meio desengonçado,
                                        atordoado, desacostumado com tal vivência. Outra música
                                        desandava a fugir do rádio, outra sintonia compunha o que
                                        fazer da vida, até que um dos dois desejasse…Dance Comigo!
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De repente, saudade

Colunistas - Rodrigo Vieira - 9 de julho de 2015

 

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Do alto dos meus vinte e poucos anos já lido com sentimentos constantes como a saudade. E isso é a você, a mim, trinta, quarenta, cinquenta, mais. De repente dá nisso: saudade.
 
A saudade é um querer resgatar o tempo, que rasga lá atrás os anos que se foram tão rápidos. Saudade também advém de uma insatisfação momentânea, não encaixe com o tempo presente. Creio, sobretudo, que seja a força humana pela busca do que faz feliz. São as caras, os gestos, os sóis vistos a dois, o cheiro de perfumes antigos, tudo isso vem na saudade.
 
Vê-se que os anos acumulados geram mudanças – crescimento e retrocesso por área de atuação. Entretanto, algo se prende ao que ficou, que foi deixado não por escolha, mas por nexo da existência. Os brinquedos que corriam pela casa, a coberta rasgada predileta, o ritual do “boa noite”, ou aquele conselho chato pela manhã.
 
Há quem sinta saudade daquele tempo vago, ao mesmo tempo tão completo. Onde as horas eram jogadas a esmo, numa ilha de bate-papo e gesticular manso, perfeitamente cabido ao ocaso reinante. Alguns caíram no frenesi urbano, e isso se faz entediante quando o relógio controla os passos corridos. Um alento, a saudade nos sobra.
 
Outros de sua liberdade adolescente, onde não havia muito compromisso a não ser responder à chamada na aula. Há saudade nisso também. Daquela época em que se ficava o dia, tarde e noite na rua, juntamente com aqueles que porventura julgamos ser eternos amigos. Saudades dos meus dramas, pieguices no espelho com a primeira espinha.
 
Lá na frente sentirei falta até mesmo da loucura profissional, quem diria. Diga com propriedade quem deixou de acordar às 5 da matina, tomar um café requentado enquanto ajeita as vestes do dia. Transporte congestionado, ida e volta, junto às preocupações rotineiras de um escritório quadrado. Isso também concebe saudade, por incrível que pareça.
 
 Já sinto saudades do que ainda não senti, vi, vivi. E isso é possível quando se considera a vida em seu máximo grau. Contemplo os amigos, cada familiar, meus lances românticos, na certeza latente de que um dia nossos momentos se irão, como eu… Pela distância, circunstância ou morte. Tudo vai, a saudade fica. Bom-senso é o cuidado por construir boas realidades que ficarão na memória, nossas lembranças são relicários.
 
Ao término deste espetáculo seremos órfãos do tempo. Ao mesmo tempo de beleza, que por ora vira crueldade, e dita a nós o limite de sermos quem somos…
Forasteiros efêmeros, desbravadores ingênuos, andarilhos de rotas falsas. Caminhamos rapidamente, vagarosamente, e ao redor tudo passa – cama bagunçada e danças sem par – e nada fica no lugar do primeiro encontro…

 

                                                                         É aí que de repente, saudade.
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Frio, àquele que dá na barriga

Colunistas - Rodrigo Vieira - 15 de junho de 2015

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Frio na barriga, o alento que ainda pulsa. Àquilo que dá lá dentro, borboletas a voar, um lado intenso a rebentar. É tudo àquilo que dá em sonho, na vontade, na vida que ainda balança em cada “nós”.
 
 É para quem perdeu a fé de vista, e de repente a vê ascender num recomeço incipiente. A quem largou numa esquina o que não conseguiu tentando, quando noutro dia a sorte lhe resolve bater à porta com um cartaz de cartolina no qual está escrito o que é teu. Para todo àquele que dormiu, olhando no céu a iminência de um brilho que está longe a chegar. Destes, por estes que vivem o frio que esquenta a emoção, na chegada de algo bom, ou mesmo coisa má. A quem se faz mexer o lado selvagem que ainda se mantém instintivo.
 
Esse tal frio – que dá – ocorre quando nos confrontamos com os nossos desejos latentes, inexpressivos por um misto de desconfiança e incredulidade de finais felizes. No instante que antecede uma resposta, ensaiada por toda uma imaginação criada até chegar ali. Na linha tênue entre o sonho e a desilusão, que ainda faz arrepiar o mais maduro dos homens em toda sua utopia particular. Porque alguém sem utopia não é digno desse sentido, que faz suar, verdejar ao mesmo tempo do desalento.
 
 Na barriga e seu frio batem uma série de misturas que ainda atestam a importância no viver. É zelo demais, querer bem demais a si. É uma imanência cativa de se importar, de revelar a mais pura essência que ainda lhe faz admirar enquanto acordado. Próprio da pessoa que descobre uma emoção já vivida, a qual de tão bela recria novas percepções que desaguam num sentimento desbravador. É algo que se esconde, mas se pensa diariamente enquanto o dia desfila pela existência, secretamente e em retumbante presença.
 
Certamente são felizes aqueles que se deixam voar pelas borboletas que lá dentro alçam rasantes irregulares. O que dá nó na voz, num atropelo de coração e palavras. Pés que escapam do chão, racionalidade sufocada pela natural pujança da emoção. Olhar no olho e ver com o peito arfante; tocar sem pressa, esquecer a eloquência de discursos, fazendo da própria ingenuidade a súplica mais devota que se dá aos céus. Há ingenuidade ainda, a pureza oculta pelo descuido que os anos travam em cada estória.
Borboletas são na verdade o que faz arder, o que faz descambar lágrimas, e o que faz acreditar mesmo sem garantia futura. É dessas asas o vento frio que dá na barriga, levando à tona o que estava à deriva, cochilando. Desconfie do total equilíbrio, desequilíbrio é parte de gente comum, que sente insegurança, temor, entre outros choques a quem ainda sente a dádiva de sentir.
 
Sentir é a capacidade máxima de nossa saga. Sentir o que está perto, longe, até mesmo rascunhar o que sentir. Tudo o que se sente é o avesso da indiferença, condição real, extinta de sua totalidade…
Renunciemos toda superioridade, supremos entendimentos conservadores, para que em meio a tantos “tanto faz” se faça sentir o frio…

Àquele que dá na barriga.

 
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Por um mundo mais gentil e bonito!

Colunistas - Rodrigo Vieira - 8 de junho de 2015

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Oi, pessoa bonita, queria dizer em secreto que lhe admiro. Queria afirmar que você me encanta, decretar que me inspira, você melhora meu dia. Não sei se sabe.
 
Não sei se sabe, mas seu jeito fácil me gruda feito imã. Essa parte me combina, principalmente nos mil mosaicos do seu sorriso. Sabes o que há em rir e sorrir, propriamente convida ao colocar em cada caso um ou outro jeito. Tiro de comparação a sua covinha da bochecha, porque já é demais; não enumerarei os pingos vermelhos de seu lado corado: já é fascínio.
 
Auto me considero um sujeito comum, entretanto me desliga essa coisa de feio e bonito, sabe? É, esse “feio” e “bonito”, o bullying mais antigo da história. Acho que pode ser efeito do tempo, não sei, hoje a educação me seduz mais que nunca. Essas pessoas que dizem “Obrigado”, “Por favor”, “Bom dia, boa tarde ou boa noite”. Essas pessoas que dão lugar, que abdicam de sua vez, que esperam a hora de falar. Ah, e aquelas que guardam o lixo até achar lixeira? Só por curiosidade, eu já reparei nessas, viu.
 
São pessoas de tom certo, entre o grito e o sussurro, naquela voz que lhe cerca a atenção. De abraços respeitosos, olhos sinceros, uma gentileza fora de hora. Sei que elas ajudam velhinhos pela cidade, devolvem troco a mais, inclusive se desculpam – com uma naturalidade de quem se conhece muito bem. Gente que dão e doam atenção, desde um fulano desconhecido que não sabe o endereço, a colegas de trabalho que não sabem determinado afazer (como um cálculo de mais e menos).
            
Andei vendo essa gente bonita, elas não temem não saber. Nem são sabe-tudo. Incrível o modo como pedem ajuda, com doçura que consente, com fragilidade que ensina que ora e outra somos professores e alunos. Elas não são do tipo que gosta de se aparecer a qualquer custo. São discretas, comunicam no olhar, ajeitada no cabelo, um pedido mudo, numa dica que soluciona seus problemas insolúveis. São assim, meio como estar e não estar, ser destaque sem folia, um exemplo que você relembra duradouramente.
          
Nada de confundir o chique com o simples. Nada de confundir com o comprado e o dinheiro. Até porque a elegância está na simplicidade que meio mundo esqueceu. E isso, gente bonita nos suscita leve e amena. Olho com olho, saudação com saudação, gratidão com favor, abraço com afeição, incentivo com desespero, silêncio com quem quer brigar. Tão fácil guardar quem sabe chegar, quem expõe e não impõe, quem sabe dizer, quem sabe a temperatura das relações.
            
Bom-senso a quem não tem! Que até o fim dessa carreira possamos nos comportar segundo a empatia e a simpatia, sabendo a tenuidade que lhes singulariza. Que possamos ser mais polidos, do volume do rádio a tomar – inutilmente – o tempo de alguém. 
Toda vez que me deparo com gente assim
– fina e bonita -,
conhecida ou desconhecida…
Realmente concordo: “Desculpe-me as feias, mas beleza é fundamental”.
Oi, pessoa bonita.
 
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Licença Poética

Colunistas - Rodrigo Vieira - 30 de maio de 2015

Eu prefiro, tão bem, viver uma licença poética crônica. Viver de licença, da licença de não ter que pedir nada a ninguém. Nada ao tudo, já que as grandes coisas, que dão para a vida, surgem como que numa cartola mágica. Espontaneidade, agradeço.
A poética é caso de poucos, pra poucos. A poética é um turbilhão bobo, um evento banal e corriqueiro, pintado à mão de criança. Sim, a poética é um estilo de vida completamente pueril. O que está nessa inocente graça são coisas que não sabemos usar, esquecemos, deixamos para trás. Vem desde um passado recente, de qualquer bala que adoçava o dia, ou do gesto carismático de mandar beijo para alguém, suscitando outra comoção sem sobrenome.
 
Licença, isso vem de nós. Isso é um rompimento, quebra de silêncio, uma anistia à falta de virtude. Que duro é se permitir, que duro é se deixar, que duro é ser alguém. Licenciar-se, não tem a ver com outrem, tem a ver com nós. É como esmagar as convicções que não servem, os preceitos do mau-humor, é mostrar o dedo do meio para um lado negro que se joga feito pessimista.
 
E de licença poética é cozinhado o jargão “Viver a vida”. Entendo, sendo desses dias chuvosos que nos encharcamos sem querer, segurando uma risada altissonante, feitos meninos e meninas chutando a poça que reluz. E vai saber se o que gente precisa é realmente tomar um banho de chuva. Ou se a gente precisa por o som no último volume, saltar pela casa com um microfone imaginário: “Tomando o mundo feito coca-cola”. Mas a gente pode precisar de um par, alguém para dançar, mesmo não sabendo, de encontrões que deem em nariz no nariz.
 De toda essa licença, quero esquecer meu tempo perdido com trabalho, com amor não correspondido, com carteira vazia, com a última conta que está pendente desde a semana passada. Quero mesmo é me perder, encontrar-me noutro canto que aparenta ser estranho, mas que me faça outra existência. Deixar de ser eu, ser um eu – lírico mais fantasioso do que factual. Ou seja, o que quero é um nome sem pronúncia, que eu não sei pronunciar.
 Do tempo, só quero o que é meu. Honestamente, é só isso que quero. Ainda assim cobro tim-tim por tim-tim, por que minha vida é pouca, e ainda sinto o mundo como uma bola gigante que não sei chutar. Por isso que acho perda de tempo a neurose com dieta, café sem açúcar, megalomania em encontros esporádicos, estar de mal como no “prezinho”, deixar para depois o que faz bem, ou toda aquela encheção de institucionalizar o que é ser “bem-sucedido”.

 

Quero licença, quero poética. Quero ser o contrário do que dizem de mim, não por revelia adolescente, mas por maturidade de quem vislumbra o sentido disso aqui. O sentido disso aqui que nos deixa confuso, que não sabe se fazemos certo ou errado, se estamos indo bem. O sentido disso, cunhado como “vida”, pela qual, cada vez mais, associo a uma grande asa que – em nós – não voa como deve.
Permito-me rascunhar em mim,
Permito-me dar de louco e de troco,
Até topo escutar os absurdos que falam de mim com tamanha paciência de minha ironia.
Mas eu quero mais, algo como pegar a lua e colocar num pote de vidro, feito pirilampo.
Algo como pegar alguém que me vire de ponta-cabeça…
Acho que é por aí que está…
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