Cafés, pelando, mais café

Sentamo-nos defronte, depois de um leve cumprimento inicial que precede o blá-blá-blá. Não, não havia puxado a banqueta estilosa para ela, como um bom gentleman faria. Entretanto, sorri ao perguntar:

– O que vai querer?

– Um café – respondia a mim e à mocinha que já atendia sem eu notar.

– Dois – complementava antes de a fulana virar as costas.

Volta e meia estamos nessa, encontros esporádicos de semana, no qual alguém cita “Quanto tempo!”, na tentativa de recuperar o tempo ausente, e realmente perdido. Mas isso ameniza. Nessa cara social, falamos sobre trabalho, discorremos sobre clichês, tudo o que encabeça a ambiência daquele ponto movimentado. Certo que havia outros entre nós na mesma condição.

Bom, o café chegou. Açúcar ou adoçante. Ela quis o adoçante, como a cartilha elegante de uma dama prediz, eu esvaziei um sachê de açúcar na xícara bonitinha.

– Você se lembra de quando…?

– Ah, sim… Verdade.

Eram conversas vazias, bestas mesmo. Era um protocolo de dois entes crescidos na urbe. Enquanto isso, o café fumegava lá dentro, sozinho naquele recipiente. Já ouvira sobre as combinações míticas de um bom café, rimas com amor, proseadas com poesia. Juro que acreditei, ou somente queria sair daquilo.

– Não é verdade? – ela apontava com o dedo mindinho a mim.

– É sim… – retrucava ausente, sem nem saber o que ela falou.

… Divagava com aquele café, tragado a poucos goles. De repente falava alguns absurdos a ela, como declamar uma frase manjada de algum escritor famoso. Nisso tudo ela se fazia de estranha, mas envolvida. Até que seus cabelos começavam a ter graça, seu sorriso agora era enigma e ela a esfinge que mais tarde me devoraria. Parecia alcoolizado, era só café, e tudo tinha mais graça. Melhor seria se falássemos das tais combinações: Ah! O amor.

– O amor é fogo que arde sem se ver?

Em meu solilóquio era só mais um, um a mais. Apenas alegrava-me o fato de o café ainda estar quente, e até que ele ardia sem eu ver. Depois de outro gole perguntei sobre seus amores, e ela demonstrara tormento ao reler seus fracassos. “Linda desse jeito?”, tentava recobrar a estima. Pois é, não estava tão feliz nos amores (pena que ela não jogava), sugeri que se permitisse mais, no entanto a recusa era clara em seu olhar reprobatório.

Certamente que aceitaria uma tarde de amor, um café e um livro de poesias, jogado aberto a canto qualquer. Pegaríamos um violão, arranharia dois, três acordes, cantaríamos o refrão. Logo deitaria em meu colo, nós no tapete da sala, bebericando na mesma xícara, ouvindo o som do relógio – que sempre quer assustar. Acalentaria, faria ninar com cabelos despenteados, acordaríamos com a réstia do sol tramitando entre a cortina velha. E ela gentilmente ia à cozinha fazer outro café, até por que eu não sei.

Paradoxal como é, a vida não tomou esse rumo. Se ela soubesse como é bom, me inconformava com sua cara de nada, de vento, que já arrumava a bolsa com uma nota na mão.

– Tchau. Até mais.

Não tive tempo de responder, estava embalado por aquela fumacinha, que não existia mais no café frio. Outra, pude ver a marca de batom na borda. Restou-me rir, nem todo mundo fora feito para amores, poesias, cafés, uma música. Mais café. Nem todos sabem tomar café, poucos sabiam o que nele tinha. Iria perguntar para a mocinha, que viera retirar as xícaras, se ela me compreendia, mas deixei pra lá. Rimos os dois, sem saber motivo, desconfiei que ela soubesse do que estava falando. Eu pedi:

– Cafés, pelando, mais café.

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