Hoje eu só quero que o dia termine em Carpe Diem

           

 

Hoje eu quis uma nova vida. Hoje eu abri a janela, o céu estava azul (de novo, e não à toa), a cortina dançou na manhã. Hoje eu quis mudar, deixar para trás o que não serviu, rasgar o casulo. Hoje eu quis Carpe Diem, ao menos só hoje.

E o que de mim fica é o que impede, é o que retorce, de que nada adianta permanecer assim. São minhas perdas, fracassos, a desistência de um amor não recíproco, um bilhete amassado de mentiras. Outros gestos, o que não fui, o que não deveria, o que amordaçou, calou, doeu. Todavia, hoje não poderia ser assim.

Acho que o agora é pra brinde. Um brinde solitário, solidário comigo, talvez por piegas, ou acreditar que ainda estou vivo. Que seja. Quero música, um ritmo cadenciado, embevecido, com êxtase nos passos da sala, onde eu posso ser louco sem par. Mas, de igual, quero silêncio. Silêncio para uma prece, uma prece de recomeço, mesmo acreditando que não estou preparado. Isto é fé, que eu tenha fé.

Fé em minha vontade, no que há de bom, no que tenho de bom. Fé em Deus, fé na vida, nas pessoas certas. E se muito me falta, pouco tenho; se pouco tenho, devo multiplicar num milagre. Afinal, vida sem milagre é um conto tão vazio. Das tantas histórias do que quero, quero um fim de dia diferente, quase pueril, quase novidade, quase como último, quase como o adeus. Encanta-me um plano sobre ele, transcende-me o não esperado, o que para alguns é acidente, para venturosos é sorte.

Será que meu dia vai acabar em “Eu te amo”? Será que vai findar no atraso do poente? Será com uma ligação de saudades? Não reclamaria se viesse com uma notícia boa, quão menos se vier num suspiro contento que lhe faz sonhar como na noite passada. Poderia ser com um grito, um beijo na boca, na bochecha, na testa. Poderia ser na bagunça de uma criança, entreolhares, um esbarrão, uma velha piada, uma remota lembrança. Poderia ser no quarto, na rua, na estação. Poderia, e eu nem imaginaria outras coisas.

Contudo, tem que ser pra hoje. Clamo para que o hoje me salve, puxe-me pelas mãos, onde não sei mais andar. Não, não quero mais esperar, não quero resignar, ou aguardar na fila de espera. O agora é meu eleito, minha sorte preferida, sem borracha em seus traços, em sua grafia dadivosa. Eu quero para hoje, eu quero para já, eu quero sorrir sem mentir, eu quero dizer do que se foi com uma simplicidade que liberta.

De tudo, não preciso de motivos. Quero dos acontecimentos inesperados, de desencontros felizes, quero estar com o rabo virado pra lua. Se virá da esquerda ou direita, não me importo, que caia do céu e me derrube. Hoje eu quis que o dia terminasse assim, só espero o amém. Espero que valha, de graça, sem papel.
  
Quanto ao que ficou, que fique.
Hoje o dia é meu, só pra mim, mais ninguém.
Que seja passado o que não me é presente…
Hoje eu só quero que o dia termine em Carpe Diem.

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